#EmCasa: Mais de 10 séries e filmes sobre ativismo

Tuesday, 9 February 2021

Esta não é a típica lista do top 10 de documentários sobre ambientalismo – se bem que a Joana Guerra Tadeu, embaixadora EcoX e ativista pela justiça social e climática, não deixa de relembrar que é obrigatório ver o Cowspiracy (2014) para compreender o impacto do consumo de carne no ambiente, o The True Cost (2015) para entender a que são sujeitas as pessoas que trabalham na indústria da fast fashion, o novo documentário dos The Minimalists, Less is Now (2021), para perceber como o consumo nos afeta e torna infelizes, e o último sucesso do David Attenborough: A Life On Our Planet (2020) para ambientalistas a precisar de motivação.

Se queres aprender mais sobre ambientalismo, ativismo, justiça social, crise climática, direitos humanosjunta-te à Joana de segunda a sexta às 17h para o Chá das Cinco, o live no Instagram onde recebe pessoas diferentes a cada dia para discutir temas tão variados como o papel da cultura ou da sexualidade, a ciência e a sustentabilidade por detrás dos cosméticos ou o que é o ecofeminismo. Às quintas, às 21h, tem ainda a rubrica #impactfluence onde quer colocar a influência ao serviço do impacto positivo no planeta e nas pessoas, convidando ONG a apresentar os seus projetos em direto na mesma rede social.

O objetivo da rubrica #EmCasa é ajudar-te a preencher o teu tempo em confinamento com ideias construtivas e divertidas, por isso, muitas das sugestões que a nossa embaixadora te traz são puro entretenimento colorido por tons ativistas para inspiração. Prepara as pipocas e lê o que nos enviou:

The Trial of The Chicago 7 (2020)

Prevê-se que seja um dos grandes vencedores dos prémios de cinema deste ano.

É um filme baseado no infame julgamento de 1969 em que sete ativistas contra a Guerra do Vietname foram acusados de conspiração (entre outros crimes) pelo governo federal dos EUA depois de organizarem protestos durante a Convenção Nacional do Partido Democrata de 1968, em Chicago. Dramatiza factos históricos para falar sobre guerra e paz, liberdade, ativismo, direito à manifestação e racismo – já que o líder da organização anti-racista Panteras Negras, o oitavo acusado apesar de nem ter estado presente nos protestos em causa, é também o único algemado em tribunal e que não é representado por um advogado, além de ser alvo de abuso por ordem do juiz.

Foi realizado por Aaron Sorkin (responsável, entre outras coisas, pelas séries The West Wing e The Newsroom e os filmes A Few Good Men, Moneyball e The Social Network), depois de Steven Spielberg ter desistido do projeto. Visto o filme, decidi que quando for grande quero ser o Abbie Hoffman mas o meu marido preferia que fosse ligeiramente mais parecida com o Tom Hayden. Vejam para perceber porquê.

Jeremy Strong como Jerry Rubin, John Carroll Lynch como David Dellinger e Sacha Baron Cohen como Abbie Hoffman. Foto de Nico Tavernise, Netflix.
Jeremy Strong como Jerry Rubin, John Carroll Lynch como David Dellinger e Sacha Baron Cohen como Abbie Hoffman. Foto de Nico Tavernise, Netflix.

The Boy Who Harnessed the Wind (2019)

Um filme sobre William Kamkwamba, baseado na sua autobiografia com o mesmo título, conta como aos 13 anos, depois de ser expulso da escola por a família não a conseguir pagar, conseguiu salvar da fome a aldeia onde nasceu, Kasungu, no Malawi, ao criar um moinho de vento com base no que foi lendo, às escondidas, na biblioteca. O moinho, construído com materiais reciclados, gerava eletricidade suficiente para criar um sistema de rega para as culturas de que todos dependiam para subsistir às secas de verão.

Foi realizado pelo britânico de ascendência nigeriana Chiwetel Ejiofor. No filme ouve-se inglês, língua oficial do Malawi, que foi uma colónia britânica, e Chichewa, uma das línguas mais faladas naquele país, que tem influências do português falado no Moçambique, colónia portuguesa. Parece um anúncio publicitário aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, demonstrando o impacto da pobreza e da fome, de ter acesso a serviços de saúde e educação de qualidade, de ter acesso a água potável, de produzirmos energias renováveis e acessíveis para todos, de ter trabalho digno e viver em igualdade, de proteger a vida do planeta, de parar a desflorestação e a seca, de viver em paz e em justiça. É possível que nos tenha tocado mais por termos visitado o Malawi recentemente e ter sido a melhor viagem da nossa vida.

Wall-E (2008)

Um história de esperança e amor entre dois robôs e entre a espécie humana e o planeta que negligenciou.

Este conto cheio de aventuras mirabolantes é ideal para explicar o que é a sobrecarga da Terra e o valor perdido com o desperdício a crianças de todas as idades e para inspirar famílias inteiras a diminuirem o consumo de descartáveis e a reduzirem o lixo produzido em suas casas e devido ao seu consumo: sim, porque por cada saco de lixo produzido num lar são produzidos cerca de 70 ao longo de toda a cadeia de produção.

Também nos inspira a mexer o corpo e comer saudável. Aliás, em tempo de confinamento, acho que é uma boa maneira de nos lembrar que é bom que isto de ficarmos de rabo no sofá em frente a um ecrã não dure muito tempo…

Black Earth Rising (2018)

É a série que estamos a ver de momento e estamos a adorar – a começar pela canção do genérico, “You Want it Darker”, a última música lançada por Leonard Cohen, 19 dias antes de morrer em 2016.

É inspirada e relata eventos reais do genocídio de Ruanda, quando membros da maioria étnica Hutu tentaram exterminar o grupo minoritário Tutsi, em 1994, matando cerca de 800.000 pessoas. A história surge em torno de Kate Ashby, uma mulher interpretada pela atriz Michaela Coel, que foi resgatada do Ruanda em criança por uma advogada de direitos humanos, que a adotou e educou em Londres. Esta advogada e o seu chefe dedicam-se a perseguir aqueles que transformaram a África Central num campo de morte e Kate acaba por seguir as pegadas da mãe adotiva.

Faz-nos considerar as réplicas emocionais, sociais, culturais, políticas e económicas de algo tão tenebroso como um genocídio. Ajuda-nos a pensar o colonialismo, o white saviourism e as relações geopolíticas entre o global norte e o global sul, onde os brancos continuam a tentar ser soberanos e oprimir os negros.

Cartaz de promoção da série Dear White People, Netflix.

Dear White People (2017)

A série que me fez compreender quão racista sou enquanto me entretinha com a vida de um grupo de estudantes de uma universidade fictícia que, existindo, pertenceria à conceituada Ivy League, nos EUA.

Corre todo o espectro da comédia ao dramalhão, faz rir com vontade mas também traz riso nervoso e cheio de vergonha a quem se revê nas personagens racistas. Leva-nos às lágrimas quando dá uns laivos de novela, e revirar os olhos quando parece um filme americano sobre mean girls, mas é, acima de tudo, uma série sobre raça e identidade negra. É a adaptação da Netflix do aclamado filme de Justin Simien com o mesmo nome (2014). Os episódios são realizados por pessoas diferentes.

Viram como comecei a descrição a falar de mim? O cartaz da série bem diz “dear white people, bet you think this show is about you”. Caramba, que o racismo não só é sistémico como está bem entranhado cá dentro.

Princess Mononoke (1997)

Uma produção do fabuloso Estúdio Ghibli e uma obra do lendário argumentista e realizador japonês Hayao Miyazaki, é um conto épico e de fantasia em anime que descreve a ligação entre a natureza e a humanidade.

Relata o conflito entre os deuses de uma floresta e os humanos que consomem os seus recursos, sendo o guerreiro Ashitaka a baralhada bússola moral que nos guia na aventura enquanto humanos e San, uma menina humana criada pelos espíritos da floresta, o farol que mostra o caminho para a harmonia que poderia ser alcançado por aceitação mútua. Acho que devíamos exigir um trailer narrado pelo Sir David Attenborough.

Ilustração do filme Princess Mononoke.

Black Mirror (2011) e Years and Years (2019)

Duas séries distópicas que nos fazem sentir demasiado perto da distopia para o nosso conforto. Vejam este excerto de um episódio de Black Mirror em que avaliamos com estrelas todas as interações que temos com outras pessoas e em que aquilo a que temos acesso depende da nossa avaliação (familiar, não é?). E espreitem este monólogo da Years and Years para levarem um murro no estômago e perceberem que tipo de poder e ação todos podemos exercer enquanto cidadãos e consumidores, e quais as consequências de nos abstermos de nos envolver.

The Good Place (2016)

Esta comédia é um excelente veículo para aprender sobre ética. Fica claro como é difícil ser um consumidor consciente, ético e intencional, como tentar eliminar a nossa pegada de carbono e o nosso impacto negativo no planeta e nas pessoas por completo é ridículo, doentio e, basicamente, impossível, e como “de boas intenções está o inferno cheio”.

Poderia ser o manifesto da ambientalista imperfeita, já que prova que se tentarmos ser perfeitos passamos a só sobreviver, se estivermos sempre em busca da saída mais ética impedimo-nos de viver, e que no equilíbrio entre bem-estar individual e bem-estar social está a virtude.

Ep. 1 da Temp. 5 de Ru Paul’s Drag Race (2009) e Ep. 4 da Temp. 2 de Blown Away (2020)

A primeira é um reality show de competição norte-americano com o objetivo de encontrar a próxima super-estrela americana do drag e, no episódio que recomendo, o tema do desafio da passarela é “Trash Couture”, e as queens respigam (dumpster dive) os materiais que utilizam para fazer vestidos fabulosos – podes ver todos os looks aqui.

A segunda também é um reality show de competição norte-americano mas vem do Canadá e é sobre vidro soprado. No episódio que recomendo as obras de arte devem inspirar a luta contra as alterações climáticas e a minha favorita foi a de Chris Taylor “Climate As A Comodity” ou “Clima Como Produto” em que representou, totalmente em vidro, um iceberg embalado numa cuvete de esferovite e coberto por película aderente.

How to Change the World (2015), My Octopus Teacher (2020) e Kiss the Ground (2020)

Prometi a mim mesma que não sugeriria documentários (para além dos que sorrateiramente incluí na introdução) mas foi-me impossível resistir a recomendar o documentário sobre o surgimento da Greenpeace que me fez perceber que, por vezes, a ação direta é mesmo o único caminho do ativismo, o documentário que convenceu o meu marido a nunca mais comer polvo e que nos fez inscrever no curso de mergulho (vamos assim que esta pandemia permitir) e o mais recente documentário americano que explica como podemos reverter as alterações climáticas apostando na conservação dos solos.

Bónus: Tenho uma parceria com o videoclube Zero Em Comportamento em que os meus seguidores têm 25% em qualquer aluguer ou subscrição utilizando o código JOANAGTADEU. Aproveita para ver os Filminhos de Fevereiro, uma compilação de curtas de animação para todas as idades, as curtas do programa Se eu sou diferente, o que és tu?, pensadas para as crianças dos 10 aos 12 anos abordarem o racismo, o bullying e a opressão, o filme para maiores de 12 O Bando dos Crocodilos, ou os documentários ambientais Um Oceano de Plástico, Que Estranha Forma de Vida, Desperdício Desperdiçado e ANGST.

Não se esqueçam de partilhar comigo e com a EcoX o que acharam das várias recomendações através do Instagram. Espero que se divirtam e inspirem com estas sugestões. E, muito sinceramente, que o confinamento não dure tempo suficiente para verem tudo o que propus…

Autoria: Joana Guerra Tadeu

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